8 º Livro: A Casa Azul Celeste


Trecho do Livro:

    Antigo nome da propriedade: Sítio dos Três Pinheiros O nome referia-se aos três pinheiros (Araucária Brasiliense), conhecidos como sendo de variedades encontradas na maior parte das terras do Estado do Paraná.
   Esses pinheiros eram vistos de longe e se destacavam na paisagem da região. A beleza deles formava um forte contraste no meio do verde das matas e dos pastos da propriedade.
   A maior quantidade de árvores estava em grotas por onde descia da montanha a água pura que vinha agraciar todo o vale, servindo de proteção viva às nascentes.
   Hoje a propriedade é denominada Sítio São Carlos, e com esse nome foi subdividida em vários outros sítios, reduzindo a quantidade de terras e aumentando o número de proprietários.
   Encontrei os filhos do senhor Enzo, netos do senhor Fernando Rani (proprietário do sítio), - Sônia e Fernando Rani Neto que prontamente falaram da experiência de terem suas vidas iniciadas naquele lugar bucólico, de luz e de muito amor, que não se vê nos dias de hoje.
   Fui recebido na casa da Sônia, numa tarde quente de verão. Estávamos sentados na sala de visitas, quando entram dois gatos: um todo peludo, branco e amarelo e outro menor, preto e branco. O carinho demonstrado por ela a esses animais era visível, chamando-os de filhos. Os gatos pareciam entender o que ela falava e se esticavam em poses diversas.
   Tudo naquela sala harmonizava-se com a dona, de aparência calma e transmitindo uma ternura afetuosa de seu passado ao lado de seus pais, irmãos e amigos. O tempo parecia não passar e entre fatos ela ia enumerando as evidências marcantes.
   No sítio havia três casas simples, de dois quartos, uma cozinha e uma despensa, sem água encanada e sem banheiro dentro de casa. Os telhados cobertos com telhas paulistinha e sem forro; quando chovia e ventava, molhava e caía muita sujeira do teto. Cada morador tinha do lado de fora da casa uma pequena horta: verduras e legumes não faltavam. Também criavam galinhas poedeiras de ovos, frangos e porcos, mantendo sempre uma refeição farta e de boa qualidade. Os porcos abatidos serviam para fazer linguiças. A gordura do toucinho era usada para armazenar a maior parte da carne que era mantida no meio dela, uma conservadora sem igual, pois naquela época não possuíam geladeira.
   A privada ficava nos fundos do quintal, afastados uns dez metros da casa, de fossa seca. À noite usavam-se os penicos ou também conhecidos urinóis, os quais ficavam em baixo das camas; se usados, na manhã seguinte, seus conteúdos eram jogados dentro das privadas. Conhecer a rotina das pessoas daquela época produzia em mim um sentimento inesperado de solidariedade e de calor humano. Cada instante vivido ali marcava na história um processo da evolução, em que todos objetivavam ter uma vida melhor, satisfatória de sentimentos e de abundância alimentar.
   Às vezes, as incertezas dificultavam as inspirações e um véu negro abatia-se sobre as ilusões dos sonhos, parando de forma angustiante nas atitudes e nas vontades que ficavam pelos caminhos. Olhar os céus, as flores e as estradas que na imaginação levam a outro mundo, aquele dos pensamentos inconfessáveis, manifestados nos anseios de seguir adiante. Sentar ao lado do riacho, ouvindo o barulho das águas batendo nas pedras, ou o brilho das gotas das águas, espargindo sobre as folhas das plantas como diamantes incandescentes, numa visão harmoniosa da vida. Tudo isso fluía nos pensamentos acomodados, que não permitiam ir além da rotina.
   A água chegava por declividade, conduzida até a bica por bambus, cortados pelo meio e sem o nó, facilitando a descida daquele líquido tão precioso. A maior quantidade de água vinha de sobre a montanha, de um platô enorme, onde muitas fazendas foram constituídas e inclusive a cidade de Santa Rita do Passa Quatro, a cidade sobre a colina. A água, no inicio abundante, através da captação feita por bambus, era levada até uma tina onde as mulheres lavavam as roupas e as crianças brincavam de mergulhar dentro dela. Depois, devido às grandes plantações cultivadas no alto da serra, essa água tornou-se escassa. Do mesmo modo, com o uso de bambus, a água era levada até as casas e ao galpão, onde se fazia a ordenha das vacas.
   Na casa que ficava no lugar mais elevado morava o proprietário, o senhor Enzo, com a sua família, e nas outras duas mais abaixo, moravam o retireiro que ordenhava as vacas, as quais produziam seis latões de cinquenta litros cada, e os meeiros, que trabalhavam a terra, tirando dela o seu sustento. A produção dos cereais, como o milho, era vendida, após a colheita, para comerciantes da região. Os colonos, após receberem pelas vendas, das suas produções de cereais, iam até a cidade e pagavam a dívida dos armazéns ou vendas como eram conhecidos. Esses pagamentos eram feitos apenas uma vez por ano. Os comerciantes confiavam piamente nesses produtores; possuíam uma caderneta onde anotavam toda a compra feita, conferida página por página no dia do pagamento.
   O leite, ordenhado no dia, seguia transportado em lombos de burros ou em carroças, levado montanha acima até a cidade e vendido na Usina Nestlé beneficiadora de toda produção leiteira do município. Os retireiros, responsáveis por esse serviço, levantavam às quatro horas da manhã para não atrasar a entrega.
   O mais gostoso era, de manhãzinha, pegar uma caneca com açúcar e ir ao curral ou estábulo tomar leite quentinho, ordenhado na hora uma deliciosa iguaria.
   O retireiro do sítio tinha dois filhos: Maria Aparecida, a Cidinha, e Pedro, o Pedrinho. Juntavam-se com as outras crianças, inclusive com os filhos do patrão Sônia e Fernando, e as brincadeiras corriam soltas. Entendiam que todos formavam uma grande família, sem maldade alguma, sem receio do por vir.
   Na propriedade as crianças compartilhavam das mesmas coisas, também das brincadeiras de subir em árvores, brincar com bola, abóbora, nadar no riacho e mergulhar na tina. Gostavam mesmo de brincar no riacho, bem perto de uma enorme figueira, tão raso que não dava para afogar ninguém. A água vinha da parte alta da montanha, da nascente existente na propriedade do Pavão, perto da Fazenda Aprazível e da Santa Urbana. Depois de um tempo, começaram a represar o riacho com pedras perto da figueira, formado um lago capaz de servir para pesca e mergulhos nas brincadeiras de natação. Também apreciavam pescar com peneiras nas entradas formadas nas depressões.
   Nos finais de semana, os moradores reuniam-se em frente das casas, cantavam, bebiam, comemoravam uma semana de vida, com saúde e amizade verdadeira.
   A terra vermelha sujava e encardia tudo, desde os pés, as mãos e até mesmo as roupas, que apesar de serem batidas no batedouro da bica e quaradas sobre a grama, mantinham as fibras encardidas. Ninguém ligava, todos viviam e partilhavam esse inconveniente.
   Os meninos gostavam de brincar de futebol e até improvisavam bolas de meias, cheias de pano, enquanto não se conseguiam bolas de verdade, como aquelas de capotão, as bolas de couro. Bolas de gude, outra preferência, pois podiam jogar na escola. As meninas, como sempre, mantinham a tradicional brincadeira com bonecas de pano feitas pelas mães ou por elas mesmas. Traziam no inconsciente que essa atividade só podia ser administrada por elas, as futuras donas de casa: um sonho distante, que acabava acontecendo. Improvisavam toda a montagem de uma casa, com suas acomodações, até com cozinhas, onde em panelas improvisadas uma mistura de terra e água formava um barro chamado de comida. Nos lugares reservados como quartos, elas definiam quem dormia em cada cama, feita com restos de panos e gravetos. Que época maravilhosa, nenhum pensamento mudava a forma de agirem: elas se tornavam administradoras de seus empreendimentos com pulso forte.
   A brincadeira de mergulhar na tina quase se transformou em desastre, quando o Pedrinho caiu dentro dela de ponta cabeça; se não fosse o senhor Enzo, ele se teria afogado. Mesmo depois dessa situação, os mergulhos na tina continuaram, mas com um cuidado maior e, às vezes, escondidos dos adultos proibidores dessa atividade, muito gostosa por sinal. Não se sabe ao certo, mas o Fernando tomou uma surra de seu pai, e ficou a dúvida: “Será que ele empurrou o Pedrinho para dentro da tina?” Bem próximo havia um pé de fruta do conde e, em cujos galhos até as meninas subiam para brincar. Parte das cascas desses galhos estava com fendas expostas pela atividade, mas logo cicatrizavam. Para todos era um paraíso.
   Para se chegar à cidade, subia-se a montanha, conhecida como a Serra do Chico de Paula, o que só podia ser feito a pé, a cavalo ou de carroça (desde que os animais fossem puxados pelas rédeas, dando segurança). Quando surgiram os primeiros carros na região, sempre havia os atoleiros e bois eram usados no resgate, que arrastavam os carros até onde eles pudessem seguir viagem.
   Quando Sônia completou sete anos, seu pai, senhor Enzo, decidiu mudar-se para a cidade, pois as crianças precisavam estudar e o difícil acesso dificultava a frequência escolar.
   Somente depois da mudança para a cidade é que o primeiro caminhão passou a coletar o leite das fazendas. O primeiro dono da linha era conhecido como Carrinho Braga e foi, sucedido por seu filho Lôlo Braga, até chegar a família Mardegam - o mais conhecido era o Toninho Mardegam. Para o sítio do senhor Enzo o problema ficou resolvido parcialmente, pois o leite tinha que ser entregue no alto da serra, em frente à propriedade rural denominada Bela Paisagem, de propriedade do senhor Juca Meirelles, o Jucão.
   Não podia ser diferente, pois a propriedade ficava dentro de uma depressão, ou melhor, em um vale onde de forma alguma o caminhão desceria, pois, se descesse, não conseguiria subir; somente os animais passavam pela estrada e chegavam à vicinal principal.
   Se a entrega do leite atrasasse, o caminhão não esperava e a carroça teria que levar até a Usina Nestlé os latões com o leite ordenhado no dia. Devido às dificuldades de subir a serra, os atrasos eram constantes. As visitas aos domingos, em fazendas vizinhas, eram feitas com as crianças no dorso dos cavalos, os quais iam puxados pelas rédeas pelos pais. Na propriedade não havia luz elétrica, usavam-se lamparinas de querosene, lampiões ou até velas nas urgências, pois todos dormiam cedo; a labuta diária pedia o descanso mais rápido, sempre no início da noite. As roupas sujas passavam pelo procedimento de lavagem na proximidade da tina, onde duas tábuas grossas serviam de batedouro primeiro fazia-se a sova para retirar a sujeira pesada, depois, esfregavam-se as peças com as mãos, completando a operação de lavagem. As roupas eram passadas com ferros de brasas vivas e ficavam uma beleza, embora mantivessem o encardido costumeiro. Os banhos eram feitos em bacias com água aquecida em fogo de lenha.
   Quando as crianças iam para a escola, seguiam descalças até a entrada da cidade; na venda do senhor Aldo Rani, elas lavavam os pés o calçavam alpargatas de lona ou chinelos de dedo. Tudo era feito visando uma duração maior do calçado. Calejados, os pés enfrentavam a rudeza da estrada; nem as pedras de cascalho representavam obstáculos.
   Andava-se pelas estradas à noite só com a luz da lua ou com lampiões de querosene. Nesse processo de idas e vindas, surgiam muitas histórias de assombração, que contadas nas rodas de amigos, amedrontavam até os mais corajosos. O ranger da porteira ao serem fechada pelo vento podia ser um fato assombroso, de arrepiar qualquer um.
   Em 1948, foi autorizada a instalação de uma rede de energia elétrica no vale. Quinze homens foram destacados pela companhia para o serviço e se hospedaram no sítio do senhor Enzo, ficando a cargo dele e de dona Josephina a responsabilidade da alimentação e da acomodação dos operários. Suas acomodações foram improvisadas e preparadas do lado de fora da casa, onde moraram até o término das obras.
   Com a chegada da energia elétrica, houve grandes mudanças de comportamento nas vidas das pessoas agraciadas. Poderiam ter um rádio, ficar mais tempo acordadas em conversas pela noite, saber de notícias de outras paragens, além de usar eletrodomésticos. Era notável a alegria de todos. Com a modernidade, as vontades ocultas e o desejo de consumo se fazem presentes.
   No início, em toda a região a cultura mais forte era o café, considerado ouro negro, a fonte de riqueza mais evidente. Depois, com o passar do tempo, passaram a cultivar o algodão, o milho, o arroz, a laranja e por último, a cana de açúcar. Ela tomou conta em definitivo das intenções de cultivo da terra, devido à mão de obra vinda das usinas arrendadoras, possuidoras da tecnologia apropriada. Assim, os gastos de manutenção das propriedades com insumos, inseticidas e herbicidas tornaram-se nulos, pois as usinas mantinham sob sua responsabilidade todos eles. Os proprietários só tinham o trabalho de receber o bônus do arrendamento, nem mesmo gastos com mão de obra havia mais. O manejo era completo. Dependendo do tamanho das terras arrendadas, o proprietário tinha ótimo lucro, ficando sob sua responsabilidade as despesas com poucos funcionários para as manutenções do entorno da sede.
   Acabava, assim, a autonomia dos fazendeiros sobre suas terras. Agora as grandes usinas tomavam conta de tudo e aos poucos, apenas os pequenos produtores, que não tinham terras suficientes para a demanda das máquinas dos usineiros, é que mantinham a agricultura tradicional, com seus percalços e prejuízos, sem o devido respeito das autoridades pelo setor.

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